"A Dança é o que eu sou"
por Sharazad El Sharon

Minha história com a dança começa no dia em que eu nasci...porque eu acho que as pessoas que são ligadas à arte são predestinadas a isso.
Desde criança eu tinha muita vontade de ser bailarina. Mas,
isso parecia um sonho tão distante!
Na infância, eu sempre ouvi de meus pais que dançar era um
sonho impossível, e que eu nunca poderia ser uma bailarina porque eu era gorda.
Hoje em dia eu vejo que isso, na verdade, era uma desculpa, uma justificativa
para o fato de que meus pais não poderiam pagar um curso de dança para mim. E
hoje eu sei que eles não fizeram isso por mal... mas, na época, isso me doía
demais.
Eu fui uma criança pobre, uma criança obesa, uma criança que
não tinha incentivo de meus pais. Minha mãe era mãe de três filhos, e só meu
pai trabalhava em casa. E a gente tinha uma vida muito sofrida: a gente não
passava forme, mas a gente passava muita necessidade, muita vontade...tanto que
um dos meus sonhos era tomar um iogurte inteiro sozinha...
Eu cresci...e, por incrível que pareça, eu me tornei uma
adolescente magra, eu tinha 12 ou 13 anos e já tinha um corpo de mulher. Comecei
a trabalhar de dia e a estudar à noite. Queria muito fazer aulas de dança, porém,
meu tempo era muito escasso.
Comecei a namorar muito nova, com 15 anos. Era um relacionamento
que, em determinado momento se tornou abusivo, e que não me permitia fazer as
coisas que eu gostava... como as aulas de dança. Passei a desenvolver um
transtorno alimentar, a bulimia, por achar que eu estava gorda. A comida era
uma válvula de escape para mim. Essa fase foi um das mais ruins da minha
vida...demorou até que eu conseguisse reagir, que eu conseguisse ver que eu
tinha que fazer algo por mim mesma.
Ninguém nunca me apoiou, nunca. E, se eu entrei para o mundo
da dança foi porque aquilo estava dentro de mim, e eu nunca desisti dessa
ideia.
Quando terminei o ensino médio, perdi também o emprego. E, de
repente, eu me vi sem emprego, sem dinheiro, e sem perspectivas. E, foi uma
fase longa...em que eu me via perdida. Eu chorava bastante, comia muito...e
tentava me conformar de que as coisas estavam bem. Mas, no meu íntimo, eu não acreditava: eu não saia de casa,
eu deixei de fazer todas as coisas de que eu gostava quando era mais nova, como
ir à piscina, ou ao carnaval, e, de repente, vi que não fazia mais nada do que
eu gostava. Nem sei porque fiquei tanto tempo presa naquela situação...
E aí surgiu a Dança do Ventre em minha vida.
Eu sempre achei a Dança do Ventre muito bonita. Mas, em
Amparo (SP), onde moro, nunca soube de um lugar em que ela fosse ensinada. Até
que, por conta daquela novela “O Clone”, em meados dos anos 2000, houve uma
certa febre pela dança. E, um dia, olhando no jornal, eu li que haveria uma
aula experimental de Dança do Ventre numa academia (onde, coincidentemente, eu
seria professora depois).
E, antes de começar a contar sobre esta minha primeira aula,
eu quero salientar: eu nunca mais deixei de dançar a partir do primeiro dia que
eu pisei numa aula de Dança do Ventre. Eu me lembro como se fosse hoje a
sensação que eu tive de entrar naquela sala de dança: a atmosfera lúdica, os
tecidos coloridos cobrindo as paredes, o cheiro de incenso, os corpos
serpenteantes, a música envolvente...eu nunca me esquecerei das sensações que
eu tive naquele momento.
E enquanto a professora ensinava os
exercícios naquela aula de dança, eu tracei uma meta para mim: não importava
quanto tempo iria demorar, mas eu iria ser professora de Dança do Ventre. A partir daquele momento,
eu comecei a me mudar para aquele mundo de sonhos que eu tinha criado desde
criança: o mundo da dança.
Eu comecei a dançar quando eu tinha
exatamente 23 anos. E eu acho que aí é que foi o início da minha vida. Minha
vida anterior à dança era só trabalhar, voltar para casa e dormir...ao
contrário de hoje, que me faltam até horas do meu dia para ditar este texto.
A Dança do Ventre é diferente das
danças comuns...nela, quanto mais experiência você tem, mais respeitada e
valorizada você é. Eu sabia que não seria fácil começar a dançar com 23 anos. E
é estranho dizer que alguém possa ser velho com 23 anos... mas a gente sabe que
uma bailarina de Ballet geralmente começa na infância a dançar.
Eu sentia que tinha talento...e eu
via que, nas aulas, eu conseguia executar bem os movimentos, eu aprendia
rápido. Até que se passaram alguns meses, a minha professora teria de faltar à aula,
e a dona da academia me ligou, pedindo que eu fosse substituí-la. E, embora eu
estivesse fazendo aulas há bem menos tempo que as outras alunas, eu pensei:
“Nossa, eu vou fazer o que mais gosto, e ainda ganhar por isso?” E aquilo me
deu um medo... mas ao mesmo tempo me deu uma certeza de que eu não estava
errada, de que eu não estava louca em acreditar que eu realmente eu era capaz.
Dentre todos os benefícios da Dança
do Ventre em minha vida, quero enfatizar que um dos maiores, e um dos primeiros
benefícios que senti, foi a melhora de minha função intestinal. Eu sofria muito
com o intestino preso, e, com o tempo e a prática da dança, essa questão se
resolveu inteiramente.
Desde que comecei a dançar, eu sempre
estudei uma hora todos os dias. Tudo o que eu aprendia nas aulas eu praticava a
semana toda, numa época em que não havia internet, só fitas K7 que eu comprava
uma vez por ano num evento da área, o Mercado Persa, especialmente ouvindo as
aulas da Lulu Sabongi.
Desisti de fazer uma faculdade, ou um
curso técnico, para me dedicar à dança no período noturno, porque eu nunca
parei de trabalhar com vendas, durante o horário comercial.
Eu tive, ao longo de minha vida,
muitas professoras. Comecei meus estudos em Amparo, com minha primeira
professora, a quem tenho muita gratidão, Maria Ângela Maganha. Depois, Dayane
Brunhara. Com o tempo, quis me profissionalizar. Fiz aulas com a Chrystal
Kasbah, em Campinas.
Tive também uma pessoa muito
importante na minha vida, que, infelizmente foi vítima de um brutal feminicídio,
a Raíssa Albernaz, por quem eu tenho uma gratidão eterna. Foi ela que me abriu
os olhos para a vida, e foi a pessoa mais importante para mim na dança. Ela era
de São Paulo, mas teve por um curto período de tempo um estúdio em Amparo, onde
eu a conhecei. Foi a partir de seus ensinamentos que eu comecei a ter sede de buscar
conhecimentos fora daqui.
Em meados de 2007, ou 2008, eu
resolvi que já estava apta a lecionar para alunas iniciantes, e procurei uma
posição em todas as academias de amparo. Bati de porta em porta em todas as
academias, até que uma delas me acolheu. Era uma academia de ginástica. Lá eu
tive uma carreira curta (por conta do fechamento da academia), mas eu tive
muitas alunas. Cheguei a ter um salário adicional ao meu, muito bom, e a partir
daí, comecei a ficar conhecida como professora na cidade.
Já ministrei aulas em vários lugares
de Amparo. E, na verdade, a minha primeira aluna começou a ter aulas comigo no
fundo do quintal da minha mãe, no quarto da minha avó falecida.
Ao longo do tempo, as coisas foram fluindo
para mim, na dança. Aquele meu primeiro relacionamento terminou, depois de um
ano de terapia e por ter projetos grandiosos para minha carreira. Eu decidi que
precisava ser firme, para seguir meu destino.
No ano de 2012 me casei com meu
ex-marido, que foi uma pessoa muito importante na minha vida. Eu me emociono ao
falar dele porque, pela primeira vez na vida, tive alguém que apoiava minha
carreira como bailarina. E eu nunca vou me esquecer disso. Eu, que nunca tive ninguém
a me apoiar na dança...passei a ter ao meu lado alguém que acreditava de
verdade que a dança era meu sonho, e passou a me apoiar em todos os meus
projetos, e me acompanhar a todos os lugares em que a dança me chamava. E,
durante todo o tempo em que fomos casados, ele foi uma pessoa que me apoiou, de
verdade: financeiramente, emocionalmente, ficava acordado comigo quando eu
precisava ensaiar, e me levou para todos os shows que eu precisei fazer.
Hoje, eu não tenho mais contato com
ele, pela forma como nosso relacionamento terminou, mas, eu me emociono pela
gratidão que sinto por ele. E acho que não há nada pior do que ser uma pessoa
ingrata. Ele nunca deixou de estar do meu lado...até quando a gente já estava
separado, ele chegou a me levar em alguns lugares, e a me emprestar o carro. De
todas as pessoas que eu conheci no mundo, ele foi a pessoa que mais acreditou
no meu sonho. E hoje eu digo que a minha carreira só está onde está pela ajuda
dele. Eu tenho absoluta certeza disso.
Em 2015, eu me inscrevi no processo seletivo da maior casa de
chá do Brasil, a Khan El Khalili. O lugar mais desejado por todas as bailarinas
de Dança do Ventre... Eu não sei se eu estava pronta, mas eu estava lá,
prestando a banca daquele ano.
Para quem não sabe, essa banca seleciona bailarinas para
ganharem e garantir um “selo de qualidade” muito rigoroso. Para obtê-lo, é
necessário ser aprovada em 32 critérios de seleção: roupa, cabelo, expressão,
maquiagem, corpo...muitos itens a serem avaliados. E eu passei.
Eu passei, porque meu ex-marido me levou durante uns dois
meses para fazer aulas particulares preparatórias em São Paulo. Eu vendi até o que eu não podia para pagar
aquelas aulas. E, mesmo com uma lesão grave na costela, consegui fazer o exame.
Dia 2 de agosto, foi o dia em que eu terminei o meu
relacionamento com meu primeiro ex-namorado. Dia 2 de agosto foi a minha banca
na casa de chá. Eu não sou supersticiosa, mas eu confesso que a coincidência de
datas mexeu comigo.
Dois meses depois, saiu o resultado da banca: eu era uma das
bailarinas selecionadas da casa de chá, no ano de 2015.
Em 2016, prestei uma nova banca, no Duna´s Bar, e passei. Durante
um ano, pelo menos uma vez por semana eu estava em São Paulo, brilhando nos
palcos de lá. Foi um ano corrido, de trabalho muito intenso, de mais gastos do
que ganhos... mas, na verdade há coisas que não tem preço, têm valor. Os anos
de 2015 e 2016 foram divisores de água na minha vida, porque passei em duas bancas
de Dança do Ventre muito importantes, passei a dançar em São Paulo, e por conta
desta visibilidade, fiquei conhecida neste meio.
Outra pessoa bem importante em minha vida é Najla Anjum, que
me proporcionou inúmeros trabalhos de grande visibilidade, inclusive na
televisão, no Top Show do SBT.
Porém, o ano de 2017 foi um ano muito conturbado. Meu
casamento acabou, e foi uma época muito difícil para mim: de repente eu perdi
meu marido, de repente eu não tinha mais carro, eu morava sozinha, eu tinha um
monte de contratos em São Paulo para cumprir, e eu não tinha como ir... foram
meses dormindo em rodoviária em dias de semana para cumprir minha agenda de
shows.
Foi o momento mais difícil da minha vida. Eu, que nunca tinha
tido o apoio de ninguém para seguir minha carreira na dança, e passei ter todo
o apoio possível, perdi tudo. Eu perdi o meu assistente, o meu motorista, a
pessoa que me ajudava em casa, e perdi meu estúdio, porque não conseguia pagar
aluguel sozinha de minha casa e do meu estúdio de dança. Eu perdi tudo de uma
vez só.
Fiquei abaladíssima emocionalmente, mas segui cumprindo minha
agenda de shows. Com a perda do meu estúdio, perdi também muitos alunos... Emagreci 6 quilos, e tive que fazer um acordo
no meu trabalho para conseguir me reestruturar financeiramente.
Tudo isso me deixou mais forte, mas não desejo para meu pior
inimigo o que passei. E, se não fosse minha mãe, minha psicóloga, e Deus, eu
teria entrado numa depressão muito profunda.
Mais uma vez, tive que renascer das cinzas, como uma fênix.
Foi um período em que eu trabalhei ainda mais, para ocupar minha cabeça. Nesta
mesma época, fui convidada a dançar no Bar El Maktub, em São Paulo. Fiquei lá
por uns meses, e tinha que dormir na rodoviária antes de voltar para casa...infelizmente,
os cachês não estavam compensando, mas acabei ganhando mais visibilidade e
marketing pessoal durante este período.
No ano de 2018 conheci meu atual marido, e comecei a me
reerguer emocionalmente. Montei um estúdio de dança em minha casa, intitulado
Sharazad Home Studio. Abri mão de ter uma sala convencional, com sofá e
televisão, e agora dou aulas em casa.
Meu atual marido me fez tirar a dor que me consumia depois do
término do meu casamento. Ele é uma pessoa que me faz muito melhor...ele me
deixa tranquila para fazer minhas escolhas, inclusive em relação à dança. Eu me
sinto muito livre para tomar todas as minhas decisões. Ele admira e acha muito
bonito o meu trabalho, ele valoriza o investimento que faço em minha carreira.
Da mesma forma que eu fui muito apoiada em meu casamento
anterior, quando eu me vi sem ninguém eu me senti perdida, sem chão. Hoje, eu
sinto que tenho esse poder todo dentro de mim.
Eu sempre tive o sonho de morar sozinha. Mas, eu achava que
isso nunca iria acontecer. E, de repente, eu me vi sozinha para fazer tudo.
Porém, no meio daquele turbilhão, eu constatei que eu me bancava: e isso foi
uma libertação. Isso me deu uma grande confiança, uma grande autonomia... Eu,
que sempre estive acostumada a ter alguém a me levar nos lugares, olhei para
minha moto e pensei: por que eu não posso fazer aulas em Campinas de moto? E,
aí, depois disso, eu comecei a ir para todos os lugares de moto. Eu só não fui
para São Paulo de moto porque, de fato é perigoso. Neste momento mesmo, em que conto
minha história, acabo de voltar de uma apresentação que fui sozinha. Sozinha,
não. Fui com Deus.
E, se não fosse a dança, eu não teria hoje essa autonomia toda.
Eu não preciso hesitar em aceitar um trabalho...eu sei que eu pego a minha moto
e eu vou. Eu não preciso depender de ninguém para ir junto comigo.
Toda a tragédia que aconteceu comigo serviu para que eu fosse
dona do meu nariz. E hoje, eu só tenho que agradecer, porque, mesmo que eu
tenha tido um sofrimento longo, eu sei que cresci.
Hoje, eu sou Sharazad El Sharon. Bailarina selecionada da
casa de chá Khan El Khalili, do bar Dunas, ex-bailarina do Maktub Bar, sou
professora de dança do ventre e proprietária do meu Home Studio. Faço inúmeros
shows e eventos, praticamente toda semana.
Logo eu, que nunca imaginei que iria conseguir participar de
uma aula de dança...
Eu nunca desisti. Eu nunca pensei em desistir. Cada coisa
ruim que me aconteceu foi como uma tábua de salvação para ir mais longe, para
provar que eu sou capaz, apesar de tudo. E essa é a minha história, de dança e
de vida. Eu não consigo me imaginar mais sem essa dança maravilhosa, que é a Dança
do Ventre.
E eu espero que essa história sirva de inspiração...porque aquela criança gorda, desestimulada, e que servia de chacota para as pessoas na
escola, ela nunca desistiu.
Para mim, a dança não é o que eu faço. A dança é
o que eu sou.
Imagens: Freepik.com e Instagram (@sharahzadel)
Parabéns Paty. muitas batalhas e vitorias.
ResponderExcluirA história da Paty (Sharazade) emociona por sua sinceridade. Ela é mesmo muito intensa em tudo o que faz, o que torna sua narrativa muito especial.
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