A dança é a vida que pulsa
Por Carolina Toneloto
Eu sempre fui uma menina que acalentava o sonho de ser bailarina. Porém, minha mãe achava que eu deveria aprender piano, e não dançar ballet...e assim foi feito. Aos quatro anos comecei a fazer aulas de música, e passei toda a minha infância desta forma: sentada à frente do instrumento, em longas horas de estudo. Foi bom. Sou professora de piano, e sei o quanto é bom saber tocar um instrumento.
Eu sempre fui uma menina que acalentava o sonho de ser bailarina. Porém, minha mãe achava que eu deveria aprender piano, e não dançar ballet...e assim foi feito. Aos quatro anos comecei a fazer aulas de música, e passei toda a minha infância desta forma: sentada à frente do instrumento, em longas horas de estudo. Foi bom. Sou professora de piano, e sei o quanto é bom saber tocar um instrumento.

Por conta do piano eu comecei a
me apresentar em audições e recitais muito cedo. A rotina de estudos e ensaios,
o cuidado ao escolher a roupa e o sapato da apresentação, a ida ao cabelereiro
para fazer um penteado especial para a ocasião...quantas vezes eu me apresentei
com vestidos costurados especialmente para mim pelas mãos amorosas de minha
querida avó! Assim, desde cedo o palco passou a ser um lugar familiar, bem como
o frio na barriga antes de cada apresentação, e a sensação de alívio sentida ao
mesmo tempo em que os aplausos começavam, finalmente.
No início da adolescência, aos
10 ou 11 anos, eu finalmente comecei a fazer aulas de ballet. Eu me lembro que
as aulas eram às quintas-feiras pela manhã, e eu me preparava para elas com
muito capricho: lembro do collant azul, da meia-calça e da sapatilha rosas que
eu usava, além do cabelo preso num coque, que sempre me deu muito trabalho para
fazer. Eu ia às aulas de bicicleta, atravessando a cidade...coisa impensável
para qualquer criança hoje em dia. E eu ainda me lembro de alguns exercícios na
barra, e das músicas do acompanhamento. Lembro da satisfação que sentia ao
realizar um movimento corretamente, e receber um elogio da professora. Acho até
que eu levava um certo jeito para a coisa! Eu era realmente era muito feliz
naquelas manhãs de quinta-feira.

Porém, aconteceu que, nesta
mesma época eu adoeci. Num certo dia eu comecei a sentir muitas dores na perna
direita, que me obrigaram a procurar um médico. Tive de ser internada, e me
submeter a duas cirurgias, além de passar por um longo período de
recuperação...Na época, os médicos que me atenderam mal sabiam o que poderia
ser: eu era uma menina saudável, sem nenhum problema físico aparente. Foi um
período muito difícil, de muitas dores e sofrimento, para mim, e para minha
família. Aos poucos eu consegui me recuperar fisicamente. Porém, tive de abrir
mão de quaisquer esforços físicos dali em diante...incluindo o ballet.
A vida seguiu. Entrei na
faculdade, e, às vezes eu me lembrava com saudades do ballet, mas seguia
razoavelmente resignada por saber que jamais colocaria novamente uma sapatilha
nos pés -eu não queria ficar doente novamente.
(Bem mais tarde, aos 30 anos, eu
descobri o que, de fato, havia acontecido naquela época: nasci com uma doença
rara, que, quando não tratada, pode gerar dores e comprometimentos ósseos, como
aconteceu comigo na adolescência. Eu nunca mais tive nenhum problema neste
sentido, mas, desde então, sigo à risca o tratamento.)
No último ano de minha graduação
perdi uma grande amiga, Isabela, e acompanhei de perto a perda da mãe de uma outra
grande amiga de faculdade. Perder duas pessoas num período de tempo tão curto me
fez pensar...a vida era muito breve para eu me privasse de fazer o que
realmente gostava. Foi, então, que eu decidi voltar a dançar!
Lembro até hoje do dia em que
saí de minha casa e fui à escola de ballet perguntar sobre os horários, e
preços das aulas. Na verdade, minha dúvida maior era se a professora aceitaria
alguém velha como eu para começar a dançar de novo. Eu tinha, então, 23 anos.
Para minha surpresa, ela me
aceitou como aluna. Inicialmente, comecei a fazer aulas de jazz com uma turma
de adolescentes. Eu tinha tudo para me sentir deslocada naquele ambiente... mas,
a verdade é que eu adorava. Passei a sentir de novo a boa sensação de estar de
volta à sala de aula, vestida como uma bailarina, e, finalmente, com uma
sapatilha nos pés. Com o tempo, fui “promovida” às aulas de ballet clássico,
com uma turma de pessoas um pouco mais velhas (mas, ainda assim mais novas do
que eu, na época). Lembro das primeiras apresentações...ainda me sentia muito
desajeitada. Palcos diferentes dos palcos das apresentações de piano. Confesso
que estranhei.
Lembro, porém, de como meu corpo
foi mudando a partir daí: o fôlego começou a melhorar, as pernas começaram a
ficar mais torneadas, a postura mais ereta, os braços mais harmoniosos...voltei
a sentir que era uma pessoa saudável, e que eu poderia, de fato, fazer o que
queria e que me fazia bem, sem medo, sem receios. Livre de tantos medos, enfim.
Hoje, com 41 anos, quando olho para
trás, vejo o quanto a dança transformou a minha vida. Ter buscado a dança como
alternativa para uma vida mais plena e satisfatória foi uma das melhores, e
mais corajosas, decisões que tomei. E tomaria essa decisão mil vezes novamente,
se pudesse.

Já fiz ballet, jazz, dança
flamenca, sapateado, dança do ventre... Já me apresentei muitas vezes...cada uma delas exigindo um sem número
de ensaios, de provas de figurinos, de horas de preparação para fazer a
maquiagem e o bendito coque (que ainda hoje tenho dificuldades para fazer).
Como é boa a sensação de dançar para alguém! Como é bom dividir o palco com
outras bailarinas e bailarinos, e oferecer, juntos, um momento de fruição e de
enlevo para cada um de nós e também para quem nos assiste. Cada apresentação que
fiz até hoje me trouxe grande alegria, boas recordações e muitas histórias para
contar.
Sou grata a todas as minhas
professoras. E também a tantas amigas e amigos que a dança me trouxe, muitas
delas coautoras deste projeto. Esperamos que nossas experiências, e nossas
histórias com a dança na vida adulta inspirem muitas outras pessoas a voltarem
a dançar, ou a começarem a dançar, na idade em que estiverem. Nossos exemplos
mostram que sempre há tempo para começar. Sempre há tempo para ser
feliz.
Termino dizendo que dançando eu
me sinto livre, feliz, plena. Sou a intérprete e a afinadora de meu próprio
instrumento, que é vivo, dinâmico, ilimitado em suas possibilidades. Meu corpo
coloca meu intelecto, minha razão, minha emoção, todas para dançar.
Não há como resistir ao apelo da
dança.
É a minha alma que dança quando
estou dançando.
(eu, muito feliz, dançando no espetáculo "Gênesis",
com coreografia da querida professora Geni Tolotto,
em dezembro de 2017)
(Imagens: Freepik.com e Arquivo Pessoal)

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